Programa Lisette Lagnado | Os afogados, os sobreviventes e o arquiteto

Regina Parra (Brasil) | Sobre la marcha II – O sobrevivente, 2015, 8’ 23’’
Louise Botkay (Brasil) | Vertières I, II, III, Haiti, Super8, 2014, 9’ 36’’
Louise Botkay (Brasil) | Sugar Freeze, Brazzaville, 2011, 10’
Louise Botkay (Brasil) | Mains propres, Chade, 2016, 20’’
Tamar Guimarães (Brasil) | Canoas, 2010, 13’ 30’’
Clara Ianni (Brasil) | Forma livre, 2013, 7’ 14’’

22h00 Programa LISETTE LAGNADO

OS AFOGADOS, OS SOBREVIVENTES E O ARQUITETO*

Duração: 56’

Os filmes que compõem esta seleção apresentam, com diferentes tonalidades, o viés autoritário que perdura no tecido social de países que, há décadas, declararam sua independência nacional. Mais ambíguas ou pérfidas, as formas contemporâneas de violência pós-colonial não deixam de perpetuar preconceitos étnicos e atos contra a dignidade da vida.
Há setenta anos, o químico italiano Primo Levi lançava o livro É isto um homem?, narrando níveis de degradação em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. O relato deveria constituir uma advertência no contexto atual em que o número de refugiados no mundo superou a cifra dos 60 milhões. Ora, não é difícil imaginar o que teria acontecido nos anos 1930 e 1940 se os mecanismos de controle migratório negassem asilo aos sobreviventes.
A programação se estrutura em duas partes. Na primeira, Regina Parra e Louise Botkay abordam o caos humanitário do Haiti e do Chade. Na segunda parte, as artistas Tamar Guimarães e Clara Ianni se debruçam sobre as contradições do projeto de um Brasil moderno. Tomando Oscar Niemeyer como figura emblemática, cada uma à sua maneira revela traços da elite autocrática na formação da sociedade brasileira. No filme Canoas, residência do arquiteto situada na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, Guimarães orquestra uma estranha aliança entre o uso mundano do local e a utopia construtiva que marcou a vanguarda. Já Forma livre,de Ianni, abre uma fissura inquietante sobre o custo humano de uma política de Estado que fez de Brasília, além de nova capital, um mito fundador.
Com pungência e delicadeza, esses filmes traduzem o curso inexorável da violência – até mesmo quando a câmera acompanha crianças reproduzindo uma liturgia transmitida pela hegemonia branca.

Lisette Lagnado, 2017

 

* A partir do título “Os afogados e os sobreviventes”, último livro de Primo Levi publicado em vida (1986).

Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga

Sexta-feira, 25/8

22H00 | Programa Lisette Lagnado

Os afogados, os sobreviventes e o arquiteto

Regina Parra (Brasil) | Sobre la marcha II – O sobrevivente, 2015, 8’ 23’’
Louise Botkay (Brasil) | Vertières I, II, III, Haiti, Super8, 2014, 9’ 36’’
Louise Botkay (Brasil) | Sugar Freeze, Brazzaville, 2011, 10’
Louise Botkay (Brasil) | Mains propres, Chade, 2016, 20’’
Tamar Guimarães (Brasil) | Canoas, 2010, 13’ 30’’
Clara Ianni (Brasil) | Forma livre, 2013, 7’ 14’’

 

LISETTE LAGNADO
(Congo/Brasil)

Lisette Lagnado (1961, Kinshasa, Congo) é crítica de arte e curadora independente. Formada em Jornalismo (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP), onde se tornou mestre em Comunicação e Semiótica, é doutora em Filosofia (Universidade de São Paulo – USP), com uma tese sobre o Programa ambiental de Hélio Oiticica. Fundou, em 1993, o Projeto Leonilson, que permitiu organizar a primeira retrospectiva do artista, morto em decorrência da aids. Autora dos livros Leonilson. São tantas as verdades (São Paulo: Projeto Leonilson/Sesi/DBA, 1995) e Laura Lima. On_off (Rio de Janeiro: Cobogó, 2014), tem diversos artigos e ensaios publicados no Brasil e no exterior. Foi curadora, em 2006, da 27ª Bienal de São Paulo (“Como Viver Junto”); da mostra “Desvíos de la deriva. Experiencias, travesias y morfologías” (2010), no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (MNCARS), em Madri; e do 33º Panorama do Museu de Arte Moderna de São Paulo (2013). De 2014 a 2017, dirigiu a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, onde hoje é Curadora de Ensino e Programas públicos.