Programa Jorge La Ferla | Territórios audiovisuais: passado e presente ibero-americanos

Edgar Endress (Chile) | Como hacer llover, 10´
Andrés Denegri (Argentina) | Uyuni, 2008, 8´18´´
Diego Lama (Peru) | The Act, 2012, 3´36´´
Claudia Aravena Abughosh (Chile) | Once de septiembre, 2002, 5´30´´
Alfredo Salomón (México) | Tensa Calma, 2008, 8´31´´
María Paz Encina (Paraguai) | Familiar, 2014. 9´
Gerardo Suter (Argentina/México) | Caja Negra, 2017, 8´30´´
Florencia Levy (Argentina) | Paisaje para una persona, 2014, 8´16´´

23h15 | Programa Jorge de La Ferla

TERRITÓRIOS AUDIOVISUAIS IBERO-AMERICANOS

Duração: 60’

Esta selecção de vídeos da América Latina realizada para o FUSO 2017 vincula-se ao evento Passado/Presente Lisboa, Capital Íbero-americana da Cultura. O programa propõe uma breve passagem pela produção audiovisual do continente. A partir de obras realizadas nas primeiras duas décadas do terceiro milénio, os vídeo eleitos expõem variadas leituras de contextos históricos, sociais e políticos em representações marcadas pela pós especificidade das artes tecnológicas e as relações da imagem em movimento no cinema e no vídeo, amalgamados na imagem digital. A uniformização do espectáulo a nível global leva-nos a pensar em velhas questões sobre a autoria, o trabalho artístico e a encenação de leituras num contexto latinoamericano.

O gradual encerramento das fronteiras a norte do Rio Grande está ligado à circulação entre as regiões e nações do sul do continente, onde o processo cíclico entre governos populistas e liberais andam de mãos dadas com uma pseudo globalização. A imposição de economias aparentemente abertas terminou com a produção industrial nacional e afirmou o papel da região como uma área de reserva e produtora de matérias-primas. Aquele pensamento opositor de resistência que existia no século XX terminou convertido, no melhor dos casos, num mero recurso retórico, como suporte de uma repartição da riqueza cada vez mais injusta para um espectro político em que a corrupção é o bem comum de todas as administrações. Esta conjuntura política sustem-se nos mass media e nas artes audiovisuais do espectáculo, assim como num mercado ligado ao sistema de poder local e global. Esta situação está ancorada nos aparelhos ideológicos mediáticos concentrados numas poucas corporações que dominam o espaço audiovisual e pautam as normas de consenso dos cidadãos espectadores. A uniformização destas mensagens cinematográficas, televisivas e telemáticas, baseadas no entretenimento, propõem um discurso pouco eficaz e pouco convincente.

Esta mostra apresenta outras directrizes conceptuais que provêem historicamente da arte contemporânea, do cinema experimental, da vídeo arte e do multimédia para uma diversidade de discursos distante do mainstream do cinema de longas-metragens latinoamericano.

Uma parte destas obras respondem a uma tendência importante, como é o uso de arquivos fotográficos, cinematográficos, televisivos, digitais. The Act de Diego Lama, parte de uma imagem da câmara de deputados do Peru na qual é feita uma inversão da imagem mediática para uma imagem jornalística. Em Familiar, de Paz Encina são os arquivos de uma ditadura do general Stroessner que são processados, colocando em evidência o sistema persecutório indiscriminado de um passado recente. Por seu lado, Caja Negra de Gerardo Suter parte de imagens de origem duvidosa que circulam na internet que documentam trajectos de silhuetas atravessando fronteiras. Once de Septiembre de Claudia Aravena confronta memórias mediáticas a partir de transmissões televisivas de imagens do golpe militar no Chile e as do ano de 2001 em Manhattan, que coincidem em dia e ano. Paisaje para una persona de Florencia Levy reconstitui um relato com base em imagens virtuais que nos remetem aos vestígios de um mundo globalizado através de programas informáticos de marca que impõem uma aparente visão do mundo real. Em todos os casos o trabalho do artista reformula um discurso baseado na política de arquivos que desarticulam a função original das imagens, numa nova interpretação para uma leitura diversa sobre conflitos e injustiças.

O outro conjunto oferece visões aparentemente poéticas ainda que desmascarando os conflitos culturais, pessoais e urbanos. Como Hacer llover de Edgar Endress retoma a problemática das etnias originais em crenças e ritos vinculados a uma cultura andina, essência da verdadeira identidade de um país vinculada ao culto da natureza. Uyuni de Andrés Denegri reconsidera o ambiente do altiplano, sendo a cadência do fotograma fílmico e o enquadramento o que sugere um distanciamento do acto de ver. Tensa Calma, de Alfredo Salomón, acontece num dos quartos de uma casa, uma performance onde o corpo e a arma de fogo confluem numa paródia da violência descontrolada.

Este breve mostruário de obras e autores caracteriza-se por uma ética na experimentação audiovisual para a representação de um ambiente complexo da América Latina, distante de qualquer normativa do espectáculo, propondo outras visões no ato de ver e narrar através de uma câmara e de uma estrutura que se inscreve como guião definitivo no delicado processo da sua pós-produção.

Jorge La Ferla, 2017

Jardim do Museu Nacional de História Natural e da Ciência

Sábado, 26/8

23h15Programa Jorge La Ferla

Territórios audiovisuais:
passado e presente ibero-americanos

Edgar Endress (Chile) | Como hacer llover, 10´
Andrés Denegri (Argentina) | Uyuni, 2008, 8´18´´
Diego Lama (Peru) | The Act, 2012, 3´36´´
Claudia Aravena Abughosh (Chile) | Once de septiembre, 2002, 5´30´´
Alfredo Salomón (México) | Tensa Calma, 2008, 8´31´´
María Paz Encina (Paraguai) | Familiar, 2014. 9´
Gerardo Suter (Argentina/México) | Caja Negra, 2017, 8´30´´
Florencia Levy (Argentina) | Paisaje para una persona, 2014, 8´16´´

JORGE LA FERLA
(Argentina)

Investigador em Meios Audiovisuais. Ele fez a curadoria de mostras e exposições de filme, vídeo, multimídia e instalações na América, Europa e Oriente Médio. Atualmente trabalha como curador em mostras pessoais individuais de José Alejandro Restrepo (Colômbia), em Buenos Aires; Gerardo Suter (México) e Gilberto Prado (Brasil) no Laboratorio de Arte Alameda de la Ciudad de México. Publicou mais de 35 livros sobre artes visuais na Argentina, Brasil e Colômbia e publicou dezenas de textos em publicações internacionais. O seu último livro Cine (y) digital, ED. Manantial de 2009. É professor na Universidade de Cinema e na Universidade de Buenos Aires e tem desenvolvido diversas atividades académicas em universidades da América e Europa.